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Marketing B2G não é marketing B2B com outro nome

  • Foto do escritor: João Perussi
    João Perussi
  • 9 de jul.
  • 3 min de leitura

Estande da Xmobots durante a LAAD 2026
Estande da Xmobots durante a LAAD 2026

Existe um erro comum em empresas de tecnologia que vendem para governo: tratar o marketing B2G como uma extensão do B2B. Mesmo funil, mesmas campanhas, mesmo playbook — só trocando "empresa" por "órgão público" no discurso.

Não funciona. E o motivo não é execução. É estrutura.

Depois de anos liderando marketing para os dois mundos ao mesmo tempo, cheguei a uma conclusão simples: B2B e B2G se parecem na superfície e divergem em tudo que importa. Quem não entende isso queima orçamento gerando leads que nunca poderiam comprar.


1. No B2G, o lead não decide comprar

No B2B, marketing gera demanda: desperta um problema, nutre o interesse, entrega um lead qualificado para vendas fechar. O comprador tem autonomia. Se ele quiser, ele compra.

No governo, ninguém "quer e compra". A aquisição nasce de necessidade institucional, previsão orçamentária e processo licitatório. O usuário que se apaixonou pela sua solução numa demonstração pode não ter nenhum poder sobre o edital. E quem redige o edital talvez nunca tenha visto seu produto.

A consequência prática: o funil clássico — atrair, converter, nutrir, vender — não descreve a jornada. No B2G, o trabalho do marketing acontece antes de existir uma compra possível: construir presença institucional, educar o ecossistema técnico e garantir que, quando a necessidade virar processo, sua solução seja referência conhecida — não uma novidade a ser explicada.


2. O ciclo não é longo. É descontínuo

Todo mundo sabe que venda para governo demora. O que pouca gente diz é que ela não demora de forma linear. Ela para. Muda de mãos. Recomeça.

Troca de gestão, contingenciamento, remanejamento de prioridade: qualquer um desses eventos zera meses de relacionamento. No B2B, um deal esfriado se reaquece com o mesmo contato. No B2G, o contato pode simplesmente não estar mais lá.

Para o marketing, isso muda a lógica de investimento. Campanhas de performance com janela de conversão trimestral fazem pouco sentido. O que sustenta o jogo é construção de ativo de longo prazo: marca institucional, autoridade técnica, presença nos fóruns onde o setor se encontra. É menos mensurável no mês. É o que decide no ano três.


3. Eventos não são canal. São o canal

No B2B digital, o evento é uma tática entre várias. No B2G — especialmente em setores como defesa e segurança pública — o evento setorial é onde o mercado inteiro acontece: usuário final, área técnica, decisor político e imprensa especializada no mesmo pavilhão, uma ou duas vezes por ano.

Perder a feira certa não é perder leads. É passar um ciclo inteiro invisível.

Por isso, no B2G, calendário de eventos é decisão estratégica de diretoria, não pauta operacional de marketing. Escolher onde estar, com qual produto, com qual narrativa e com qual meta de relacionamento vale mais do que qualquer campanha digital do ano.


4. O conteúdo muda de função

No B2B, conteúdo converte: e-book, webinar, comparativo, prova social. No B2G, conteúdo legitima. O material técnico bem-feito circula dentro do órgão, embasa especificações, dá segurança a quem precisa justificar uma escolha publicamente.

Isso exige outro padrão: profundidade técnica real, linguagem institucional, zero promessa inflada. Um exagero de marketing que passaria despercebido num anúncio B2B pode custar credibilidade — e credibilidade, nesse mercado, não se recupera com mídia paga.

O que isso significa na prática

Se sua empresa vende para os dois mercados, a pior decisão é um plano de marketing único. O caminho que defendo:

Separe as estratégias, compartilhe a marca. Uma marca forte serve aos dois mundos; funil, canal, conteúdo e métrica precisam ser desenhados por lógica de mercado.

Meça coisas diferentes. No B2B, custo por lead qualificado e pipeline. No B2G, presença institucional, relacionamentos ativos e participação nos processos certos. Cobrar CPL de uma operação B2G é medir a coisa errada com precisão.

Eduque a diretoria sobre o tempo de retorno. O investimento B2G se comporta como ativo, não como campanha. Quem espera resultado trimestral vai cortar a verba exatamente quando ela começaria a funcionar.

B2G não é B2B mais lento. É outro jogo, com outras regras e outro placar. Tratar como igual é a forma mais cara de descobrir a diferença.


João Perussi lidera marketing em tecnologia de alta complexidade, operando mercados B2B, B2G e canal.

 
 
 

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